A MITOPIA DE ROBERT COOVER: A BÍBLIA REVISITADA

 

Delzi Alves Laranjeira – UFMG

 

 

Este estudo analisa a reescrita de três episódios bíblicos nos contos de Robert Coover: o dilúvio, a concepção e a ressurreição de Jesus. Em suas versões, Coover insere elementos distorsivos e subversivos, minando o sentido original do texto bíblico. Tal subversão aponta para um processo que envolve a discussão do conceito de verdade, da maneira como é apresentado na Bíblia, e de como é construído por Coover em suas versões. Seus contos provêem alternativas que questionam a Bíblia como uma detentora da verdade e propõem novas maneiras de ler textos considerados “fechados” em termos de sentido e interpretação, característica típica da literatura pós-moderna.

O estabelecimento de uma ponte entre os textos bíblicos e os contos de Coover é efetuado através de uma abordagem semiótica baseada na concepção de signo de Charles Sanders Peirce. Para Peirce, o signo é composto de uma relação triádica entre um signo, ou representamen, seu objeto e o interpretante que o signo suscita, seu significado. A semiótica de Peirce é adotada como uma perspectiva, a qual permite uma maior compreensão dos processos que ocorrem quando um texto é ativado, ou seja, quando uma demanda para a construção de sentido é requerida. A literatura representa seu objeto como um signo de possibilidade, assim, ela é um “signo cujo interpretante não é limitado naquilo ao qual ele pode se referir como objeto, isto é, é um signo aberto e indeterminado” (Pinto, 1995:44). Isso quer dizer que um texto literário, enquanto signo, pode gerar interpretantes dinamicamente e infinitamente.

Considerar a Bíblia sob uma perspectiva semiótica, e, nesse caso, sob a teoria peirceiana de signos, ajuda a compreender as múltiplas interpretações que emergem quando várias leituras das escrituras ocorrem. Tal variedade é analisada levando-se em consideração que a Bíblia, dentro da cultura, é um interpretante a mais, isto é, ela resulta de um processo interpretativo que envolve as tentativas humanas de entender e conferir sentido à vida e ao mundo. Como um interpretante num processo de semiose, a Bíblia se torna, como Peirce diz, “um signo mais desenvolvido” (CP 2. 228) e, como tal, está sujeito a interpretações ulteriores. Embora um fundamento religioso pretenda conferir à Bíblia uma derradeira e inquestionável idéia de verdade, equivalente a um interpretante final, outras visões, versões, leituras e releituras da Bíblia sempre se interpõem, criando novos interpretantes e evitando o estabelecimento de um consenso único sobre seu significado. Sob um ponto de vista semiótico, cada abordagem do texto bíblico é parte de um processo de semiose, uma vez que cada tentativa estabelece novas relações entre signos e objetos para produzir novos interpretantes. Os contos de Coover, por exemplo, escritos à luz dos textos bíblicos, representam mais um passo neste processo semiótico.

A análise de “The Brother”, “J,s Marriage” e “The Reunion” em face dos textos bíblicos demonstra que, enquanto signos, eles representam seus objetos—os mitos bíblicos—de acordo com um determinado fundamento, e os interpretantes que emergem como resultado dessas relações divergem substancialmente dos interpretantes derivados de uma leitura cristã da Bíblia. A subversão dos textos bíblicos por Coover pode ser explicada pela mudança de contexto, ou fundamento, através do qual ele (re)lê e (re)escreve os mitos bíblicos.

Em “The Brother”, por exemplo, é necessário que o leitor conheça a história de Noé e do dilúvio para reconhecer a similaridade dos temas. No conto, o personagem principal narra uma passagem de sua vida: como ele ajudou seu irmão mais velho a construir um grande barco. Assim que a construção termina, uma forte chuva inunda tudo, inclusive a fazenda onde o irmão mais novo vive com sua esposa, que está grávida. O irmão mais novo pede ajuda para o mais velho, que já está com a família e vários casais de animais a bordo. Ele pede um lugar para si e a esposa, mas o irmão mais velho apenas acena e vai embora, sem respondê-lo. Desesperado, o irmão mais novo volta nadando, sobe em uma colina e espera pela morte, tentando entender como seu irmão sabia sobre o dilúvio. O conto termina abruptamente, sem ponto final, indicando que as águas cobriram a colina e afogaram o irmão mais novo.

Existem várias possibilidades de enfatizar como Coover diverge da narrativa bíblica em “The Brother”: uma delas é o uso que o autor faz da linguagem e técnica narrativa, as quais revelam uma radical discrepância entre os dois textos. Coover usa fluxo de consciência como técnica narrativa, coloca o protagonista como narrador em primeira pessoa, permeia o texto com palavrões, enfim, diverge totalmente do narrador omnisciente em terceira pessoa que relata o episódio do dilúvio no texto bíblico. Outra possibilidade parte da premissa que “The Brother” seria uma “profanação da Bíblia, no sentido de que o conto reinterpreta ou coloca em segundo plano o caráter sagrado das escrituras, trazendo à luz o aspecto humano da história. Uma vez que o foco da história é no homem que morre afogado devido a uma forte chuva, e não no homem que salvou-se porque, prevendo de alguma forma o dilúvio, construiu um barco. Esta “secularização” demonstra não apenas um outro elemento subversivo, mas também expõe a textualidade da Bíblia, ao remover os contextos religioso e doutrinário, deixando somente o texto a ser explorado. Um terceiro aspecto do conto que contribui para enfatizar subversão é o uso da ironia. Textos pós-modernos têm usado ironia como uma estratégia para estabelecer “uma divisão ou contraste de sentidos, e também um questionamento, um julgamento” (Hutcheon, 1985: 53). Fundamental para o funcionamento da paródia, como no caso dos contos de Coover, a ironia opera no texto para sinalizar uma distância crítica entre a Bíblia e “The Brother”, ao mesmo tempo que questiona e até mesmo desmantela o conteúdo das narrativas bíblicas. Uma outra abordagem refere-se a uma leitura semiótica de “The Brother”. Dentro desse contexto, o suposto caráter subversivo do conto deriva dos diferentes interpretantes que a história, enquanto um sistema de signos, habilita seus interpretadores a criar em relação ao texto bíblico.

O segundo conto, “J´s Marriage”, é sobre J, um homem atormentado pelo fracasso de seu casamento. A história começa com a decisão de J de se casar com sua amada, apesar das diferenças: ele é muito mais velho e mais culto que ela. Como em “The Brother”, o leitor é capaz de reconhecer a referência bíblica. A passagem na qual a mulher sem nome (que pode ser relacionado como Maria) revela a J que está grávida evoca a concepção virginal de Jesus. O personagem J expressa o que a Bíblia não mostra: como a revelação da gravidez de Maria afeta os sentimentos de seu marido. Diferentemente do relato bíblico , não há nenhum anjo para explicar a situação a J. Em “J´s Marriage” Coover muda o texto bíblico ao considerar este episódio a partir de um ponto de vista humano, ao invés do divino. Diferentemente do José bíblico, o mundo de J é embebido em uma esfera completamente humana, sem qualquer interferência de Deus, ou pelo menos J pensa assim.

Através da história, os aspectos mais íntimos da mente de J, sua angustia, sua concepção de mundo e de Deus são trazidos a luz. J tenta, de uma maneira existencialista, estruturar uma noção de realidade que se adeqüe às suas convicções, mas falha por causa da intervenção de Deus. Como o suposto irmão de Noé em “The Brother”, que ignora a aliança entre Deus e Noé, J desconhece as relações entre Deus e sua esposa, e seu próprio papel nelas.

A comparação entre o José bíblico e o J de Coover fornece elementos para corroborar a visão de que em “J´s Marriage” o José bíblico é retratado de uma maneira radicalmente diferente da versão bíblica. Este é o cerne da subversão do texto bíblico por Coover do ponto de vista semiótico: um interpretante bíblico estabelecido referente à pessoa de José é questionado e leva a outros interpretantes que minam a visão cristã. Como em “The Brother”, “J´s Marriage” incorpora, no contexto de um processo de significação, o mesmo objeto da Bíblia—a vida de José. Contudo, o fundamento através do qual estes signos representam este objeto muda, e a conseqüência é a criação de não apenas diferentes, mas divergentes interpretantes. Como em “The Brother”, o elo com a Bíblia em “J´s Marriage” não é explicito: ele depende que o interpretador tenha “conhecimento prévio com o que o signo denota”(CP 8. 177). Isso significa que para entender “J´s Marriage” como um signo que representa o mesmo objeto do texto bíblico, os leitores devem saber que José é um personagem bíblico casado com Maria, a mulher que gerou Jesus, o filho de deus. Este conhecimento, ou o que Peirce chama de experiência colateral—“experiência além daquela mediada pelo próprio signo” (Johansen, 1993:204)—é necessária para entender o universo do discurso do texto de Coover. ou seja, colocar os “objetos representados pelo signo dentro de uma totalidade, ou objeto total” (p. 204); em outras palavras, estabelecer uma contextualização do objeto.

O interpretante bíblico referente a José mostra-o como um homem bom que confia inteiramente em Deus. José assume seu papel nas vidas de Maria e Jesus sem aparentar qualquer tipo de dúvida. Ele aceita seu destino porque este é escolhido por Deus. O J existencialista de Coover demonstra uma visão oposta. A partir dos espaços em branco que os Evangelhos relegam a vida de José, o conto de Coover mostra que J viveu e compreendeu sua vida como um ser humano, e que, além dessa esfera ele foi incapaz ( diferentemente do José bíblico) de construir um sentido para ela. Essa idéia está presente também no terceiro conto, “The Reunion”.

 “The Reunion” é baseado no episódio narrado no Evangelho segundo João, no qual Tomé duvida da aparição de Jesus aos apóstolos. Assim como em “The Brother” e “J´s Marriage”, não há referências explícitas às passagens bíblicas, porém os leitores são capazes de reconhecer nos personagens de Tomé e Pedro, os únicos que têm nome, as figuras dos apóstolos que seguiram Jesus. A narrativa é sobre um encontro, uma reunião de pessoas que estão aparentemente esperando por alguém. Nas outras duas histórias—“The Brother” e “J´s Marriage”—Coover se mantém, de algum modo, fiel aos acontecimentos da narrativa bíblica. Em “The Reunion”,contudo, ele muda um fato do enredo original da Bíblia, uma mudança que enfatiza profundamente o aspecto subversivo do conto em relação ao texto bíblico. Nos Evangelhos, o homem que aparece aos apóstolos é Jesus, que foi crucificado pelos romanos. No conto de Coover, o homem que aparece para Tomé, Pedro, a mulher sem nome e o resto do grupo não foi crucificado, mas enforcado.

Em “The Reunion”, no discurso de Tomé aos integrantes do grupo, ele menciona que a pessoa a qual eles estão esperando foi enforcada, e portanto está morta. Coover simplesmente ignora a crucificação, um dos pilares do Cristianismo, a derradeira prova da morte de Cristo para redimir a humanidade de seus pecados. Crucificação é uma palavra que tem uma conexão imediata com Jesus: a cruz tornou-se o símbolo do Cristianismo, mas em “The Reunion” Coover a substitui por uma corda. Essa destruição de um símbolo cristão explicita a crença do autor que mitos, quando considerados não como uma verdade literal, mas como ficção, podem ser manipulados, distorcidos e subvertidos, e seu caráter dogmático é então quebrado, e “sua energias liberadas em novas perspectivas”( Andersen, 1983:323). O discurso de Tomé também enfatiza o humano ao invés do divino e sobrenatural: para ele, pessoas mortas não ressuscitam. Como em “J´s Marriage”, a visão de mundo de Tomé é construída sobre o que ele considera verdadeiro e possível, a esfera divina não faz parte dela. Tomé procura na racionalidade uma maneira de reconstruir sua vida após a experiência com Jesus. É por isso que a noção de ressurreição é impossível para ele. Ele se recusa a acreditar num sistema que só pode ser explicado pela fé.

Assim como em “The Brother” e “J´s Marriage”, a identificação do universo de discurso em “The Reunion” depende da experiência colateral dos leitores. O homem enforcado, contudo, resiste a uma conexão direta com a Bíblia. Para interpretar o homem enforcado como sendo Jesus, os leitores devem inferir que a reconstrução do episódio da ressurreição por Coover introduziu um novo contexto para a figura de Jesus. O reconhecimento dessa mudança aponta para a subversão do registro bíblico. Lá, Jesus é a figura central do Novo Testamento, ele é o objeto dos quatro evangelhos. Sua ressurreição é considerada como o mais fundamental dos mitos cristãos, significando a redenção da humanidade do pecado e do sofrimento, um renascimento para uma vida espiritual plena. Os narradores dos quatro evangelhos direcionam sua leitura para esse interpretante, quaisquer que sejam seus destinatários e interpretadores. Em “The Reunion”, o homem enforcado como um interpretante para Jesus é apenas uma das possibilidades de interpretá-lo dentro do conto. Como signo, o homem enforcado é revestido de uma opacidade que permite a criação de muitos interpretantes os quais variam de acordo com os contextos, ou fundamentos adotados para interpretá-lo.

Com base no que foi analisado acima, podemos concluir que os contos de Coover são inerentemente pós-modernos na sua de maneira de realizar uma investigação acerca das potencialidades e conseqüências da reformulação de textos. Como reescrita de conhecidos episódios bíblicos, eles questionam como o sentido dessas narrativas contêm uma noção de verdade e realidade para os leitores. A valorização das margens ao invés de um suposto centro remove a voz da autoridade e traz à tona novas vozes. Nos três contos Coover privilegia personagens e pontos de vista que são relegados à periferia ou sequer considerados nas narrativas bíblicas. A recusa de “fechamento” do texto enfatiza sua permanente abertura. Da mesma maneira que Coover considera as narrativas bíblicas abertas o suficiente para gerar novas histórias, ele conscientemente confere a mesma característica às suas versões. Os personagens sem nome que resistem à identificações definitivas apontam para essa abertura, porque uma vez que nada pode ser afirmado, os interpretadores são livres para estabelecer as conexões que desejarem.

Os interpretantes em “The brother”, “J´s Marriage”, e “The Reunion” derivam da sua conexão com as histórias bíblicas, ou seja, das relações intertextuais estabelecidas, e essa conectabilidade funciona como um fundamento para identificá-las como signos representando mitos bíblicos. O objeto, contudo, nunca é totalmente apreendido, assim, o fundamento configura-se como uma perspectiva sobre a qual o signo representa seu objeto. Isso significa que os contos de Coover não estão necessariamente relacionados com as narrativas bíblicas: este é um fundamento escolhido para inferir sentido sobre eles enquanto signos. Outros fundamentos, tais como uma leitura muçulmana, budista ou qualquer outra que não seja cristã ou judia, de “The brother”, “J´s Marriage”, e “The Reunion” criariam diferentes interpretantes para essas histórias. A abertura do texto literário proclamada pelo pós-modernismo pode ser entendida como o reconhecimento da literatura como um signo de objetos possíveis, abertos e indeterminados. O que os escritores pós-modernos estão explorando em suas ficções é a opacidade do signo, que permite, como no caso dos contos de Coover, enxergar a Bíblia sob uma nova perspectiva, indicando que, do ponto de vista semiótico, nenhum sentido é estático.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

ANDERSEN Richard. The Artist in Coover's Uncollected Stories. Southern Humanities Review, Auburn, v. 17, n. 4, p. 315-324, Fall 1983. (Tradução minha)

COOVER, Robert. Pricksongs & Descants. New York: New American Library, 1970.

_____. “The reunion”. The Iowa Review, v. 1, n. 4, p. 64-67, Fall 1970.

HUTCHEON, Linda. A Theory of Parody. New York: Routledge 1985. (Tradução minha)

JOHANSEN, J. D. Dialogic Semiosis. Bloomington: Indiana University Press, 1993. (Tradução minha)

KEARNEY, Richard. Postmodernity and Nationalism: a European Perspective. Modern Fiction Studies, Purdue, v. 38, n. 3, p. 581-593, Autumn1992. (Tradução minha)

PEIRCE, Charles Sanders. Collected Papers. Hartshorne, Charles; Weiss, Paul; Burks, Arthur R. (Eds.). Cambridge, MA: The Belknap of Harvard University Press, 1931-1935, 1938.A convenção de se referir aos Collected Papers de Peirce, aqui abreviado por CP é: o número decimal da esquerda designa o volume e o número à direita identifica o parágrafo. (Tradução minha)

PINTO, Julio. 1,2,3 da Semiótica. Belo Horizonte: UFMG, 1995.